Blog

Bioeconomia se beneficia com redução do desmatamento e busca novo padrão

Em busca de inovação, empreendedores vivem momento de efervescência na Amazônia

A empresária Soon Hee Han, filha de imigrantes sul-coreanos que enriqueceram na Zona Franca de Manaus (ZFM) com a febre do comércio de importados nas décadas de 1970 e 1980, aposta hoje todas as fichas na bioeconomia. Após o império da família nos eletrônicos da moda e na construção civil, impulsionada pela expansão da cidade devido ao polo industrial, uma nova fronteira se abriu aos negócios com a experiência da empreendedora no comando de uma famosa rede de spas no país.

Especializar-se no mercado de beleza e bem-estar, conta ela, foi o caminho depois de superar uma grave doença com medicina alternativa. Formada em economia internacional na Califórnia, rodar o mundo em busca de referências impulsionou a estratégia, até que a pandemia a levou de volta à Amazônia para reconectar suas raízes no bioma amazônico.

“Cuidar de si mesmo deve refletir nos cuidados para com quem está no meio da floresta e ajuda a manter o planeta vivo”, afirma Soon, à frente da Amakos, startup de cosméticos de alta performance feitos com ingredientes amazônicos. Ao projeto, somou-se a expertise digital do sobrinho, o manauara Yuri Han, terceira geração da tradicional família de empreendedores, agora com um olhar diferente para a Amazônia.

“O momento da região não poderia ser melhor para o negócio”, avalia Han, CFO da empresa, sediada no Centro de Incubação e Desenvolvimento Empresarial (Cide), em Manaus, ao lado de outras startups inovadoras, como a Warabu (chocolates) e a Amazônia Smart Food (proteína vegana).

A expectativa, diz Han, é valorizar produtos da floresta que é conservada e reduzir riscos climáticos, com impacto positivo a comunidades fornecedoras de insumos, como a copaíba da Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Uatumã (AM). Na Serra do Tepequém (RR) é obtido o carro-chefe dos produtos da startup: o sangue-de-dragão, resina vegetal de múltiplas propriedades, pois estimula a síntese de colágeno e é 50 vezes mais potente do que a vitamina E para a pele.

Após redução do desmatamento, é chave ir além do comando-controle e investir na valorização da floresta em pé”

Carlos Koury

Após investimento total de R$ 3 milhões, a ambição é faturar, anualmente, R$ 200 milhões em cinco anos, com 70% de internacionalização para Estados Unidos, Inglaterra, China e Japão. De acordo com Han, o mercado mundial de cosméticos naturais representa 6% do setor como um todo e cresce 60% ao ano e ávido por novidades. Uma delas, recém-lançada pela startup manauara, é o “nano-açaí com vitamina C” – à base de nanotecnologia, que aumenta a absorção e o efeito prolongado na pele. “O ambiente de negócios com a biodiversidade está mais maduro, exigente e fiscalizado. Será difícil cair de paraquedas, lançando qualquer coisa”, afirma.

Busca-se um novo padrão para a bioeconomia amazônica. “Após redução do desmatamento, é chave ir além do comando-controle e investir na valorização da floresta em pé”, observa Carlos Koury, diretor de inovação em bioeconomia do Idesam. A ONG coordena o Programa Prioritário de Bioeconomia (PPBio), política pública que investiu na Amakos e totaliza R$128 milhões repassados pelas indústrias da ZFM para bionegócios.

“O capital privado precisa arriscar mais pela Amazônia”, reforça o diretor. A ExpoAmazônia Bio&Tic, feira de negócios realizada no fim de novembro, em Manaus, retratou a efervescência na escalada da atividade. Mas, segundo Koury, há desafios para implementar políticas públicas.

O projeto Nova Economia da Amazônia, coordenado pelo WRI Brasil, calcula que a bioeconomia da região representa hoje um PIB de R$ 12 bilhões, podendo atingir R$ 38,6 bilhões em 2050. “Precisamos chegar à COP30, daqui a dois anos, em Belém (PA), com o mínimo de maturidade para mostrar a Amazônia como ativo real, e não só potencial, com segurança para investidores e portfólio de inovações atraente para o capital convencional”, ressalta Marcos Da-Ré, diretor de economia verde da Fundação Certi.

Márcio Galo, coordenador de finanças verdes do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, diz que “é importante aproveitar o momento, porque não há barreiras parlamentares na agenda da bioeconomia”. A pasta colocou em consulta pública a iniciativa do Selo Amazônia para diferenciar produtos originários da região. “Mas é preciso iincluir a economia indígena nas contas oficiais e retirá-la da invisibilidade”, afirma André Baniwa, chefe do departamento de demarcação territorial do Ministério dos Povos Indígenas.

A expectativa está no Plano Nacional de Bioeconomia, em construção no governo federal. “Há que reduzir o custo-Brasil, com mudanças para que a economia verde seja mais valorizada”, analisa Thiago Falda, presidente executivo da Associação Brasileira de Bioinovação (ABBI).

Fonte: Valor Econômico – Globo

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *