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Bioeconomia pode gerar renda e combater pobreza na Amazônia

A presidente Silvia Massruhá e a diretora Ana Euler, de Negócios, participaram, nesta quarta-feira, 8, do seminário “Bioeconomia e Sociobiodiversidade Amazônica: um potencial eixo de integração dos países da Pan-Amazônia”, coordenado pelo IICA. O evento integra o conjunto de debates que acontecem em torno do G20 e tem o propósito de discutir a importância da bioeconomia como eixo integrador dos países que têm a floresta Amazônica em seu território.  

A presidente da Embrapa participou do painel de abertura, com Christian Fischer, representante-adjunto do IICA no Brasil, e Patrícia Pinho, diretora-adjunta de pesquisa do IPAM Amazônia. Silvia destacou a atuação das nove unidades da Embrapa na Amazônia Legal. “Temos discutido muito essa agenda da bioeconomia na Amazônia baseada em três pilares: sociobioeconomia, bioeconomia de base florestal e a agro bioeconomia.

Em sua apresentação intitulada Oportunidades e Desafios da Bioeconomia para o Desenvolvimento da Região Amazônica, a diretora Ana Euler destacou o potencial da sociobiodiversidade para agregação de valor da bioeconomia na região. “Por trás de cada uma das cadeias, de cada uma das tecnologias que vamos apresentar, há uma relação histórica da Embrapa com comunidades, com uma diversidade de instituições, o que significa que as tecnologias e conhecimentos não estão isolados mas associados a processos territoriais ”, afirmou. 

Para a diretora, a bioeconomia não é única, pois dentro da Amazônia, cada país tem uma vocação. “Mesmo quando olhamos para a Amazônia Brasileira, são várias Amazônias”. Segundo o IBGE, são 200 milhões de hectares, mais de 200 etnias e 800 mil estabelecimentos agropecuários rurais. “Estamos trabalhando um plano estratégico para a ciência, tecnologia e inovação, mercado e negócios para a bioeconomia”, anunciou, destacando a parceria com os ministérios do Meio Ambiente (MMA), Desenvolvimento Agrário (MDA), Desenvolvimento Social (MDS) e Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).

A diretora participou do painel junto com Carina Mendonça, secretária de Bioeconomia do MMA, Moisés Savian, secretário de Governança Fundiária, Desenvolvimento Territorial e Socioambiental do MDA, Edith Paredes, diretora administrativa da Organização do Tratado da Cooperação Amazônica (OTCA), e Hugo Chavarria, gerente de programa do IICA.

De acordo com o MDA, o Brasil abriga cerca de 20% da biodiversidade do planeta. São 305 etnias indígenas, 28 segmentos de povos e comunidades tradicionais, 58% do território brasileiro coberto por florestas naturais ou plantadas. “Portanto, a bioeconomia é um ativo florestal importante, que precisa ser pensado sob o ponto de conservação e do manejo”, afirmou Savian, reconhecendo que a construção da agenda em termos de políticas públicas ainda está na fase inicial, considerando que o ministério foi recém-criado.

“Um dos desafios é incluir as cadeias da sociobioeconomia da Amazônia no crédito agrícola, pois, atualmente, 90% do crédito para a agricultura familiar no bioma tem foco na pecuária”, complementou o secretário.

Para Ana Euler, embora a Embrapa historicamente tenha ofertado grandes contribuições para políticas públicas transversais à bioeconomia, como o Renovabio e o Plano ABC +, é preciso olhar também para os processos e cadeias produtivas com foco nos territórios e povos tradicionais, fortalecendo redes de  pesquisa e priorizando infraestrutura e editais com este olhar. Ela destacou que a Embrapa está realizando um diagnóstico de sua atuação na Amazônia com foco nos povos e comunidades tradicionais e nos agricultores familiares, identificando as várias economias da sociobiodiversidade e tendo como pilares sistemas produtivos sustentáveis, a valorização do conhecimento local, justiça e inclusão social e a repartição equitativa de benefícios.

Estrutura da Embrapa no bioma

ão nove unidades descentralizadas localizadas no bioma amazônico, 1.222 empregados, 75 laboratórios (na foto, um dos laboratórios, da Embrapa Acre), 63 bancos ativos de germoplasmas e coleções, sendo boa parte de espécies nativas da biodiversidade. “Para os países amazônicos, gostaríamos que a Embrapa funcionasse como um Hub, com  centros de capacitação e intercâmbio de conhecimentos e tecnologias, com laboratórios compartilhados e dispondo de bolsas de mobilidade para apoio a pesquisadores e estudantes da região ”, afirmou, ressaltando que existem atualmente  50 cadeias produtivas e 220 ativos tecnológicos entre cultivares, processos agropecuários, máquinas, equipamentos e softwares. “Da mandioca ao babaçu, passando pelo mel, óleos essenciais, peixes e quelônios”.

Entre os desafios da pesquisa e inovação em Bioeconomia na Amazônia estão o combate às desigualdades, o acesso ao conhecimento, o fomento à assistência técnica e extensão rural pública, a formação de multiplicadores, o acesso ao crédito e às políticas públicas, a construção de uma rede de intercâmbio e comunicação, o acesso a novos mercados com a valorização dos produtos da sociobiodiversidade. 

A diretora também enfatizou que no Portfólio Amazônia – que reúne o conjunto de pesquisas da Embrapa e parceiros voltados para o desenvolvimento da Amazônia-, dos 9 desafios de inovação, o considerado mais importante pelos stakeholders (atores regionais representantes de diferentes organizações públicas, privadas e dos movimentos sociais) consultados bianualmente é a agregação de valor.

Como exemplo do trabalho histórico realizado na área  da agregação de valor com foco na bioeconomia no bioma, Ana Euler destacou as cadeias produtivas do açaí, babaçu, cupuaçu, pescado, farinha, além de softwares contribuem para a gestão ambiental  e produtiva, como o GeoFlora que reúne geotecnologias aplicadas à automação florestal e espacialização dos estoques de carbono em áreas de floresta nativa, ou o InfoBee uma plataforma  web temática que disponibiliza serviços e informações técnico-científicas, econômicas e de mercado sobre a apicultura e a meliponicultura.

Sob o ponto de vista da Embrapa são caminhos para superar os desafios da bioeconomia na Amazônia: investimento em Pesquisa e Inovação, valorização do território, protagonismo da comunidade, parcerias locais, investimento em inovação aberta e ofertas de editais que induzam ao desenvolvimento local sustentável e investimentos em políticas públicas.

Necessidade de investimentos em  adaptação e resiliência

Um conjunto de instituições privadas e públicas, representações empresariais e fundações, Febraban e Consórcio da Amazônia Legal, se uniram com o propósito de produzir insumos para se somarem aos debates no âmbito do G20. O chefe da Assessoria de Relações Internacionais, Marcelo Morandi, participou, no dia 6, do evento “A Bioeconomia Global – Levantamento Preliminar das Estratégias e Práticas do G20: Uma Contribuição para a Iniciativa de Bioeconomia do G20 (GIB) da Presidência Brasileira”.

O evento contou com a participação de autoridades nacionais e internacionais, como o secretário de Economia Verde do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Rodrigo Rollemberg, representantes dos ministérios da Fazenda e da Ciência, Tecnologia e Inovação, do BID, de organizações não governamentais internacionais e de embaixadores.

Morandi participou no painel 4 – “Visão das Embaixadas e Países sobre Bioeconomia”, com a presença do conselheiro para Clima, Energia, Ambiente e Saúde da Embaixada da União Europeia, Laurent Javaudin,  o CEO do Fórum Mundial de Bioeconomia, Jukka Kantola, o embaixador da Índia no Brasil, Suresh Reddy e Tatiana Schor, chefe da Unidade da Amazônia do BID.

Foram debatidas questões como Bioeconomia e Clima. “Há a necessidade urgente de os países investirem em suportes  à adaptação e resiliência dos sistemas de produção de todas as naturezas. Sem isso, estamos perdendo a capacidade de dar um passo importante que é o de reduzir emissões e mitigar. Sem adaptação fica difícil falar em mitigação, dentro da produção de alimentos e de biomassa e qualquer outra forma de produção que venha diretamente do uso da terra”, afirmou Morandi.

Ele destacou importantes temas e princípios geradores da equidade com foco na bioeconomia:  dar capacidade para que todos produzam, implementando políticas que permitam que a adaptação chegue aos produtores mais vulneráveis: pequenos produtores, extrativistas e comunidades tradicionais, considerados segmentos com maior dificuldade de se manter no processo. “E aí entram os princípios da resiliência e da eficiência no sentido de trazer os conhecimentos tradicionais e os científicos juntos  para agregar valor ao processo, bem como trazer a ciência para a discussão política”, enfatizou o chefe da Arin. E acrescentou como outros princípios importantes para agregação de valor para a bioeconomia a geração de energia sustentável para o sistema de produção,o uso da terra e o comércio justo.

Como posso usar os processos da bioeconomia para promover o crescimento e a geração de riqueza de forma equitativa? Foi outra questão levantada por Morandi no painel internacional. “São aspectos que estão sendo discutidos nas negociações de agricultura e clima e que agora se somam nas discussões da bioeconomia”, disse. 

Por fim, Morandi também destacou a importância de se trabalhar a educação da população para melhor compreensão dos princípios da bioeconomia. “Nós temos a experiência exitosa da produção do etanol,  com 90% da produção certificada e cientificamente comprovada como estratégia para redução das emissões. Nossos veículos são adaptados para flex, mas chama atenção o fato de o consumo de etanol não aumentar no País. “Estamos falando de transformação do sistema de produção, financiamento da bioeconomia, mas não estamos educando o consumidor e nem gerando acesso”, afirmou. “A sociedade cobra pelo processo da sustentabilidade, mas não está preparada para participar do financiamento. É preciso avançar”. 

Das tradições orais ao avanço da ciência moderna

A Embrapa também esteve presente nos debates sobre bioeconomia promovidos pelo Ministério de Relações Exteriores, na Iniciativa Global de Bioeconomia do G20, realizada de 7 a 9 de maio, em Brasília.

Saiba mais em: Interlocução entre conhecimentos tradicionais e ciênica moderna baliza debates da segunda reunião da iniciativa de bioeconomia do G20

Discussões sobre a relevância do conhecimento, desde tradições orais até os mais recentes avanços da ciência moderna, para a bioeconomia foram centrais na segunda reunião da Iniciativa inédita. As ministras do Meio Ambiente, Marina Silva, e da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, e a primeira-dama, Janja Lula da Silva participaram das discussões.

A diretora Ana Euler, representou a Embrapa, no dia 7 de maio, na sessão “Bioeconomia para uma Agricultura Sustentável e Diversificação dos Sistemas Alimentares”. A diretora fez um resgate histórico do impacto da pesquisa agropecuária para a agricultura entre os anos de 1973 até 2024, demonstrando a contribuição da ciência para a tropicalização de culturas e o melhoramento genético, a transformação de solos ácidos em férteis que permitiu a expansão da produção brasileira do sul para as demais regiões, e as inovações nos processos e boas práticas agropecuárias que permitiram ao país aumentar sua produção de grãos em 580% com aumento de 140% em área, chamado de efeito “poupa terra”. “Somente uma agricultura baseda em ciência permite aos agricultores colher até três safras por ano”, afirmou. 

Se nas décadas de 70 e 80 a meta era garantir a segurança alimentar com a expansão da agricultura e nas décadas de 80 a 90 a meta era ser um país competitivo, a partir de 2010 as preocupações passaram a ser com a sustentabilidade e descarbonização. Atualmente o foco é o desenvolvimento de plataformas que permitam reunir dados, tecnologias, protocolos que orientem a adoção de boas práticas, o financiamento e rastreabilidade da produção em bases sustentáveis. 

Zarc, Agricultura de Baixo Carbono, bioinsumos, recuperação de áreas degradadas, ILPF foram alguns dos exemplos das tecnologias da Embrapa que contribuíram e continuam a contribuir para o desenvolvimento sustentável e a descarbonização da agricultura.   Na safra 2022/2023, a Fixação Biológica do Nitrogênio foi adotada por mais de 90% dos produtores de soja no Brasil gerando uma economia para a cultura da soja de cerca de 4 bilhões de dólares e uma redução de emissões de  223 milhões de toneladas de CO2 equivalente.

Os principais desafios para a Bioeconomia dos países do G20: reduzir a fome e promover a segurança alimentar, gerar inovações para a redução das mudanças do clima, ciência e tecnologia adaptadas às necessidades e capacidades regionais,  prospecção e a promoção da biodiversidade com sustentabilidade, capacitação de multiplicadores, igualdade no acesso das oportunidades, promoção da agregação de valor local, reconhecimento de indicações de origem, e construção coletiva e participação.

Fonte: Embrapa

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